Como é importante saber o seu lugar – Reflexões from Canadá (parte 1)

 

Sempre ouvi histórias incríveis sobre o Canadá.

A civilidade, o respeito, a segurança, a limpeza das ruas. A cordialidade das pessoas. A maneira como tudo funciona. Quando estávamos decidindo o lugar para o filho fazer intercâmbio, logo Vancouver ganhou nossos corações – uma mãe dorme melhor sabendo que as crias estão a salvo, afinal.

De fato, encontramos tudo isso.

No entanto, uma coisa saltou aos meus olhos: a Natureza da região que, mesmo no Verão, deixava muita neve à mostra e, às vezes, nos obrigava a colocar roupa em cima de roupa em cima de roupa (ai meu deus, cadê o cobertor), além da sensação de congelamento na ponta do nariz.

E comecei a pensar sobre os nossos modelos estéticos de beleza natural, tendo crescido em um país tropical, onde valorizamos sol a pino, coqueiros (nunca sei quando são palmeiras), areia branca e mar verdinho.

Tudo no Brasil te convida a interagir com a Natureza, seja pela pouca roupa ou porque, de fato, não há grandes riscos ou perigos iminentes. Em nosso país, em geral, a Natureza não é fator que inspire grandes cuidados.

Ela nos acolhe e isso nos dá uma falsa impressão de sua fragilidade – e da nossa possibilidade de controle.

Pra mim, esse foi o ponto no Canadá.

Lá, a Natureza, em geral, não é convidativa: ela apenas se deixa ser admirada e reserva um pequeno espaço para que você chegue perto dela.

Mas fica claro, a todo momento, quem é que manda ali.

Tudo é construído e pensado para lidar com ela e proteger os frágeis humanos.

A todo momento somos convidados a observar seus sinais e respeitar seus limites.

Com isso, fui levada a um estado profundo de contemplação – e meu lugar no mundo, de repente, tomou forma dentro de mim.

Não me achei pequena.

Porém, diante daquela imensidão, curvei-me a algo, de fato muito maior que eu.

A partir de um lugar não-racional.

E me entreguei <3

Longe de me diminuir ou enfraquecer, senti força.

O meu lugar era dentro dela.

E, quando eu conheço o meu lugar, nada me causa dano.

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Pra entender melhor estas palavras, é preciso saber que eu sou/estou em:

  1. período de reflexão
  2. lugar de exercício do olhar
  3. ponderação acerca das possibilidades do mundo

Outros locais em que me senti apropriada do meu lugar: cavernas em Minas Gerais. Ilhas no Paraná. Morros na Bahia. Cachoeiras em Goiás. Mar, mar, mar em todo lugar <3 <3 <3

E na ventania de todo ar (principalmente nos Andes).