A mãe que habita em mim saúda a profissional que habita em você

Fui mãe aos 17 anos.

Trabalho desde os 16.

Vendi Yakult de porta em porta, embalei ovo, viajei o interior do Estado do Rio de Janeiro inteirinho oferecendo consórcio de eletrodomésticos para aqueles que, nem sempre, podiam comprar (antes do boom das grandes redes de varejo).

Dos 18 aos 21, fui estagiária, assistente em gráfica, diagramadora, designer. Trabalhei com carteira assinada, sem carteira assinada, com e sem respeito também. Atravessava a Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, num ônibus lotado, com a bunda pra fora, pra descer na passarela cinco, em Benfica, e ainda andar mais três quilômetros até a gráfica.

Comia na pensão, saía às 18h30 e atravessava a cidade pra ir pra faculdade, em Ipanema. Dava meia-noite e eu ainda não estava em casa. Acordava 4h45 todo dia. Minha mãe criava o meu filho, eu o via aos fins de semana.

Mudei pra São Paulo e, seis meses depois, trouxe o Raphael. Casei, meu marido na época assumiu tudo – inclusive buscar o pequeno no colégio porque eu trabalha num jornal a 20km de distância até 22h30, inclusive aos fins de semana.

Fui de quase um tudo, viajei o Brasil inteiro a trabalho, com minha mãe (que morava no Rio), minha sogra (em SP) e meu marido dividindo a logística comigo.

Mas, quando algum acidente na escola acontecia, era eu que queria estar lá. Quando ele ia pro hospital, é ÓBVIO que eu estaria lá. Nas reuniões, nas festas de escola, não interessa: esse tipo de momento nunca vai se repetir.

Aos 27, tive outro filho.

As viagens passaram a ser internacionais. Os cargos, mais altos.

Na mesma época, me separei.

Meu ex-marido seguiu sendo o cara que eu sempre imaginei que ele fosse: parceiro até o fim. As pessoas, no trabalho dele, estranhavam quando ele saía no horário pra dar conta do filho que, vejam vocês, TAMBÉM ERA DELE. Incrível.

Dois anos mais tarde, casei de novo (tenho essa mania): e encontrei mais um que entendeu que eu não sou a única responsável por arcar com tudo.

Em avião não dá pra viajar com a bunda de fora, mas era algo simbolicamente igual: muitas madrugadas em aeroportos de Manaus, Porto Alegre, Salvador, Brasília, Chile, Argentina, México. Guarulhos minha vi-daaaaaaa, Guarulhos meu amoooooor (meio isso).

Trabalhar, portanto, nunca foi um problema, acredito que por quatro principais razões:

  1. Eu nunca abusei da maternidade ou menti pra matar trabalho;
  2. Tive a sorte (sim, sorte) de sempre ter tido apoio das pessoas da minha família e da minha melhor amiga, que me socorria em necessidades extremas;
  3. Os meus empregadores, de alguma forma, acreditaram no meu compromisso e não dificultaram o meu caminho;
  4. Os meus filhos, agora grandes (19 e 9 anos), entendem que a mãe deles é a única possível – desse jeitinho trabalhadora que é. Sem culpa.

Então, entendo que quatro grandes atores precisam ressignificar suas responsabilidades: nós mesmas, nossa família, nossos chefes e nossos filhos.

Ser mãe sempre me fez melhor.

Mas eu não sou tão boa sozinha.

Feliz dia da Maternidade Possível <3